“Se mantenham longe do Petro”, diz Alexandre Van de Sande

Em um post divulgado em seu perfil na rede social Facebook no dia 23 de Fevereiro de 2018, Alexandre Van de Sande (UI/UX desinger na Fundação Ethereum) alerta sobre os riscos de se adquirir o Petro. O Petro é a nova moeda lançada pela Venezuela de Nicolás Maduro.

Para Alexandre, “(…) eles demonstram uma grande incompetência (ou talvez má fé) em relação a conhecimentos de blockchain, ethereum, economia e até de matemática”.

Segue o texto do post de Alexandre na íntegra:

A Venezuela começou essa semana a pre-venda de um token seu, possivelmente no Ethereum. Falei sobre isso no twitter e em uma entrevista ao Washington post, mas queria deixar um alerta aqui também: se mantenham longe do Petro. Na minha opinião eles demonstram uma grande incompetência (ou talvez má fé) em relação a conhecimentos de blockchain, ethereum, economia e até matemática. Deixa eu explicar:

A moeda promete ser “lastreado por petróleo venezuelano”. Mas não é, em nenhum senso da palavra. A moeda será criada com 100 milhões de unidades e de acordo com a Venezuela mais Petros não podem ser emitidos. A razão desse limite é óbvio: eles sabem que o mercado não confiaria em uma moeda que Caracas possa emitir a vontade, como é o caso do Bolívar, mas ao colocar o limite máximo de 100 milhões eles garantem que a moeda vai ter um valor flutuante: se a oferta é fixa, e a demanda é aberta no mercado, dizer que o preço será fixo é uma contradição das leis da física.

Eles resolvem o assunto com essa equação linda, que está na imagem:

(O valor pago pelo Petro / Bolívar) = (Preço do Petróleo / Petro) x (Petro / Bolívar) x (1 – DV)

Reparou que tanto Bolívar e o Petro são divididos por eles mesmos? Simplificando eles da equação e substituindo a “constante de desconto” (1 – DV) por N temos:

Valor pago pelo Petro = Preço do Petróleo x N

Onde N é uma constante DECIDIDA PELO GOVERNO. Pior ainda, todos os valores de correspondência não são do mercado aberto, mas as taxas de exchange oficiais que como qualquer um sabe, são ridiculamente fora da realidade.

Então o “lastro” do Petro é esse: é uma promessa do governo Venezuelano de comprar a moeda do mercado em exchanges “oficiais” pelo preço que eles bem entenderem.

Mas a coisa piora: não há detalhes técnicos. Já saíram notícias que seria feito no Ethereum, ou no Decred, ou no Nem. Não há nenhuma linha de código publicada em nenhuma dessas plataformas, mas a pré-venda JÁ COMEÇOU! A pré venda está sendo feita “privadamente” e depois irão abrir uma venda aberta ao público. Uma forma de julgar projetos sérios de blockchain é o quanto eles se comunicam claramente, de forma transparente. O governo de Maduro está nesse sentido, se comportando de forma semelhante a projetos de golpes e pirâmides.

Não estou dizendo que eles estejam fazendo um golpe, nem que subitamente levantar milhões em vendas privadas em moedas digitais seria uma forma excelente de lavar dinheiro sujo do governo – apesar da plataforma permitir. Porém uma coisa eles mesmos deixam claro: uma das funções do Petro é se esquivar de bloqueios financeiros impostos pelo sistema de bancos mundial. A Venezuela diz isso no próprio White Paper. E os Estados Unidos já anunciou que investigará compradores da moeda.

Pra terminar, acho curioso mencionar que no Whitepaper deles eles mencionam o Chaves como a inspiração para criação do Petro, por que nos anos 90 ele falava da importância de uma moeda lastreada em matérias primas (como se essa tivesse sido uma idéia particularmente original). Parece um ponto pequeno (claro que o Maduro homenagearia o Chavez) mas revela algo curioso: a razão que eles não puderam citar mais ninguém do meio tradicional de blockchains é simplesmente porque todos os pensadores originais eram influenciados por anarco-capitalismo, libertariários que defendiam mercados não controlados pelo governos o que incompatível com o governo da Venezuela. Entre as razões citadas das vantagens de lançar uma moeda, eles comentam como seria útil para a população se eles tivessem acesso a uma moeda estável, que funcione para o comércio e como investimento. Mas a Venezuela tinha uma moeda assim: o bolívar, que foi destruído pelo mesmo governo que quer uma segunda chance. Não dê a eles essa.

Uma coisa somente, que eu vejo como positiva: criptomoedas são excelentes meios de desviar de bloqueios no mercado, mas da mesma forma que isso pode ser usado pelo governo, também pode ser usado pela população, contra os bloqueios criados pelo próprio governo ao acesso ao dólar. Ao promover o uso de sua criptomoeda internamente, talvez eles acabem facilitando a própria população ter alternativas ao destruído Bolívar, e deem acesso a muitos para uma moeda que não está mais sobre o controle do Maduro.

 

Logo mais abaixo seguem a postagem original do Facebook e a thread do Twitter mencionada por Alexandre: