O mercado de criptomoedas vive um momento de fortes contrastes. Enquanto o bitcoin opera em queda pela segunda sessão consecutiva, puxado pelas incertezas de um projeto de lei nos Estados Unidos, os gigantes do setor financeiro tradicional parecem não se intimidar com o cenário. O impasse atual gira em torno do adiamento de um debate no Comitê Bancário do Senado americano, motivado pela forte oposição da Coinbase a certos pontos da proposta que tenta criar um marco regulatório para o setor.
O embate das stablecoins e a resiliência do mercado
O grande nó dessa disputa envolve a proibição das chamadas “recompensas em stablecoins”. A Coinbase e outras empresas fazem questão de poder pagar rendimentos aos clientes que mantêm essas moedas atreladas em suas contas. Do outro lado estão os bancos tradicionais, que enxergam a medida como uma ameaça frontal. Como pagam taxas de juros baixíssimas nas contas de varejo, essas instituições temem uma fuga em depósitos caso os usuários migrem para as opções mais rentáveis das corretoras cripto. Apesar desse choque imediato e da dificuldade nítida para um avanço rápido na legislação, a resiliência do bitcoin sugere que o mercado aposta em um aprimoramento e na eventual aprovação do texto.
Apetite voraz na conferência de Miami
Se em Washington o clima é de cautela, a conferência iConnections em Miami mostrou uma realidade bem diferente. Mesmo com o bitcoin perdendo trilhões em valor de mercado desde a sua máxima histórica em outubro e registrando uma queda acumulada de quase 25% neste ano — o que também arrastou para baixo ações de empresas populares como Coinbase e MicroStrategy —, o apetite dos investidores segue firme. O evento reuniu mais de 75 fundos de ativos digitais e sediou cerca de 750 reuniões entre gestores e alocadores de capital. É um volume de negociações que bate de frente com os números de 2022, pouco antes do colapso da FTX.
Ron Biscardi, CEO da iConnections e veterano com 25 anos na indústria de investimentos alternativos, tem uma visão privilegiada desse movimento por comandar uma plataforma que representa mais de US$ 55 trilhões em ativos. Segundo os dados de sua empresa, quase um quarto dos parceiros limitados já demonstra interesse por estratégias envolvendo ativos digitais. Essa demanda é puxada principalmente pelos family offices, que têm um histórico conhecido de apostar em classes de ativos inovadoras. A pressão também recai sobre gestores de patrimônio tradicional, que precisam cada vez mais oferecer exposição a cripto para clientes ricos, especialmente em polos financeiros estratégicos como Dubai, Suíça e Cingapura.
A barreira fiduciária e o fim do estigma
Para os diretores de investimentos, os ativos digitais deixaram de ser uma aposta marginal para se consolidar como um pilar dentro das opções alternativas. O tom do debate mudou de forma radical. Ninguém mais perde tempo discutindo se as criptomoedas são apenas um esquema Ponzi, uma dúvida que ainda rondava o mercado dois anos atrás. Biscardi avalia que o bitcoin já cruzou a linha da legitimidade institucional, e as altcoins caminham na mesma direção.
A grande barreira que resta é justamente a falta de clareza nas regras do jogo. Grandes alocadores não operam com dinheiro próprio; eles atuam como fiduciários de terceiros. Por mais atraente que a categoria seja, eles só vão injetar capital de forma definitiva quando puderem garantir aos seus conselhos que estão agindo em um ambiente seguro e devidamente regulamentado. Enquanto a regulamentação não se resolve de vez, até mesmo parcelas mais conservadoras do capital, como os fundos de fundação, começam a se posicionar. Eles estão comprando ETFs de bitcoin e ether em busca de uma exposição comedida, na esperança de alavancar retornos em um momento onde muitos esperam que o mercado de ações entregue lucros mais tímidos do que na última década.




