O Bitcoin ganhou um novo apelido carinhoso nos bastidores do mercado financeiro: “Steady Eddie”. A maior criptomoeda do mundo parece ter adotado uma postura de crescimento lento e constante. Desde o início dos conflitos recentes envolvendo o Irã, o ativo registrou uma alta de cerca de 10%, superando o desempenho do ouro e do índice S&P 500. Os investidores estão começando a olhar com outros olhos para essa resiliência em meio às pesadas tensões geopolíticas no Oriente Médio. O preço chegou a bater a marca de US$ 76.000 na noite de segunda-feira e operava na casa dos US$ 74.500 no final da terça. Tudo isso enquanto o mercado aguarda com ansiedade a decisão sobre a taxa de juros do Federal Reserve, com a maioria dos traders apostando na manutenção das taxas.
Previsões, cortes e o peso da regulamentação Especialistas em ativos digitais não estão totalmente convencidos de que essa escalada gradual veio para ficar. O Citi Research, por exemplo, cortou sua meta de preço para o fim do ano de US$ 143.000 para US$ 112.000. O motivo apontado pelo banco é o ritmo lento e engessado das aprovações legislativas, especialmente a chamada Lei de Clareza (Clarity Act). Esse projeto é a peça-chave que vai definir o framework para avaliar o que é valor mobiliário e o que é commodity no ecossistema cripto.
Alex Saunders, estrategista de pesquisa do Citi, avalia que um avanço regulatório destravaria a demanda institucional e direcionaria um fluxo forte para os ETFs. O banco traçou cenários bem distintos baseados no momento atual. A visão otimista, impulsionada por uma maior demanda, projeta o ativo a US$ 165.000. Já o cenário pessimista, baseado em fatores recessivos no nível macroeconômico, joga o preço para US$ 56.000. São margens largas, que vão de uma queda de 25% a um salto de 120% em relação aos preços recentes.
Apesar das incertezas, há dados animadores. A empresa de análise Nansen observa que os fluxos contínuos de saída das corretoras indicam que os compradores não estão despejando suas moedas para realizar lucro imediato. Além disso, os ETFs registram a terceira semana seguida de entrada maciça de capital. O termômetro de curto prazo, segundo o analista da Nansen Nicolai Søndergaard, será mesmo o tom adotado pelo Fed. Um discurso mais duro (hawkish) pode gerar realização de lucros de forma rápida, enquanto uma postura neutra abre espaço para novas altas. Para o mercado ficar realmente otimista, o ativo precisaria manter esses níveis com forte volume de negociação por alguns dias.
A matemática por trás de um valuation milionário Enquanto o mercado foca nos gráficos de curto prazo, análises de longo espectro continuam povoando as discussões institucionais. Afinal, um único bitcoin tem potencial para valer US$ 1 milhão? Antes de mais nada, tire da cabeça a ideia de que isso é uma previsão. Trata-se de uma análise técnica e provocativa feita por Matthew Mezinskis, do podcast CryptoVoices, que decidiu cruzar os dados da base monetária das 31 maiores economias do mundo com a do ouro e a do próprio bitcoin. Esse bloco gigante de países responde por mais de 90% do PIB global.
A escolha de comparar especificamente a base monetária, e não outro agregado como o M1, tem uma justificativa bem direta. O M1 mistura o papel-moeda emitido com os depósitos à vista nos bancos comerciais. Depósitos são passivos, promessas de pagamento. A base monetária, por outro lado, é o ativo final de liquidação nas economias modernas. É exatamente aqui que o bitcoin e o ouro se encontram com as moedas fiduciárias, pois ambos são ativos finais, têm valor em si mesmos e não dependem da obrigação de terceiros.
Inflação fiduciária versus escassez digital Olhando para os dados históricos desde 1969, ano próximo ao colapso do acordo de Bretton Woods e ao início da era do papel-moeda sem lastro, o estudo traz um choque de realidade. A inflação da base monetária das moedas nacionais é brutalmente superior à do ouro e à expansão futura programada do bitcoin. Vale pontuar que a inflação aqui se refere ao aumento da quantidade de dinheiro no sistema, e não às oscilações dos índices de preços ao consumidor.
Enquanto a oferta de ouro aumenta a uma taxa anual inferior a 1,8%, a inflação da base das moedas nacionais orbita a casa dos 13%. A lógica econômica impera: quanto mais aumenta a quantidade de dinheiro na economia, menor tende a ser o seu poder de compra. A partir dessa disparidade crônica, a pesquisa faz um exercício hipotético. E se toda a base monetária do mundo, estimada hoje em quase US$ 20 trilhões, simplesmente migrasse para o ouro ou para o bitcoin?
Dividindo esses US$ 20 trilhões pelas 5,9 bilhões de onças troy de ouro disponíveis na Terra, o metal saltaria para um preço “potencial” de US$ 4,6 mil por onça. Aplicando a mesmíssima conta para o bitcoin e dividindo a base mundial pelos pouco mais de 17 milhões de moedas em circulação, o preço chegaria aos estonteantes US$ 1,2 milhão.
É vital manter o ceticismo saudável. Essa projeção usa uma premissa altamente improvável de que as moedas nacionais voltariam a ter lastro total nesses ativos. Mesmo que uma adoção massiva se verificasse na prática, a relação entre choque de oferta e preço nunca é uma equação constante. A economia real é indiscutivelmente mais complexa e cheia de variáveis do que qualquer modelo teórico é capaz de prever.




